Joaquim Lagoeiro

(1918-2011)

O escritor veirense Joaquim Lagoeiro, de seu nome próprio Joaquim Henriques Pereira, nasceu a 2 de setembro de 1918, no lugar das Olvas, em Veiros, e faleceu aos 92 anos, a 11 de março de 2011. Nas terras marinhoas de Estarreja passou a meninice e a juventude. Ingressara entretanto no seminário, donde lhe provieram as primeiras influências literárias, associadas também ao facto de ter nascido e crescido em terra de emigrantes. Após os estudos foi para Lisboa, onde trabalhou na Caixa Geral de Depósitos, onde fez um percurso notável, até se aposentar.

Como complemento desta atividade bancária e na qual se tornaria muito mais conhecido, dedicou anos e anos ao cultivo das letras, publicando com êxito muitos romances.

Com as obras "Viúvas de Vivos", "Madre Antiga" e "Milagre em S. Bartolomeu" construiu o que chamou "Tríptico da Terra". Da estadia na capital surgiram "Mosca na Vidraça", "Manto Diáfano", "As Castigadas", “Os Fraldas”, “Corda Bamba”, “Santos Pecadores”, “Almas Danadas”, “O Poço”, “Cafarnaum”, “Mar Vivo”, “Caiu um Santo do Altar”, “A Congosta”, “Ramilhete Espiritual de Estórias Profanas”, “Manual de Casos de Consciência”, “Flor de Sal – Sonetos de Amor e Escárnio”, “Uma Lágrima do Céu”, “Desconstrução”, entre outras.

Reformado e residente em Lisboa, mas nunca esquecendo a sua terra, muito pelo contrário, Joaquim Lagoeiro tornou-se escritor de tempo inteiro. Vinha sempre que podia e, sobretudo, mantinha contínua relação escrita com os periódicos locais.

Em 2010 publicou duas obras: “Erótica e Satírica” e “O Baile”, que razões de saúde impediram de lançar em janeiro de 2011, na celebração da Elevação de Estarreja a Cidade. Já hospitalizado, nesse mesmo ano, tinha acabado de rever “Português sem mestre III”, a sua assumida última criação. Declarou, tão à sua maneira, que estava mais leve, já podia voar…

Medalha de Mérito Municipal de Estarreja em 2006 (ver deliberação), Joaquim Lagoeiro recebeu elogios de Julião Quintinha, Artur Portela, Tomás de Figueiredo e Urbano Tavares Rodrigues, que o consideram um dos grandes valores do romance Português da segunda metade do séc. XX.

Eis Joaquim Lagoeiro, comprovada referência literária, que é nossa.

“Quer-nos parecer que o escritor aure as suas virtudes na maneira direta e real como observa a vida.” Artur Portela

“Uma aventura ideomática. Lagoeiro insere-se nessa fascinante tradição da prosa portuguesa, no melhor que a prosa portuguesa possui.” Baptista Bastos

“É-me sempre reconfortante ler páginas nas quais o idioma é colocado no altar do coração.” Baptista Bastos

“Escritor na verdadeira aceção.” Tomaz de Figueiredo

“… diálogo vivo. Tão vivo e insinuante que fico a perguntar porque não foi ainda tentado pelo Teatro?” Mário Sacramento

“… a Natureza mudada em prosa, as frases despidas de casquilhos qualificativos, a descrição que é tão luminosamente direta como o sol que se repete…” Áppio Sottomayor

“… Não falei de mim, mas da nossa terra. Alguém comentará para si: outra coisa não tem feito senão falar de si mesmo. Talvez com razão. Cito de cor José Régio: Diga o que diga, é sempre falar de Deus. Também eu, falando da nossa terra, de mim falei. Porque a nossa terra é a minha obra. Se a boca de cada um fala do que lhe vai na alma – pois bem, aqui vola deixo.”

in Palavras Ditas, Joaquim Lagoeiro, setembro 2002

OBRAS DO AUTOR

Romances

Viúvas de vivos, 1947
Os Fraldas, 1951
As Castigadas, 1953
Corda Bamba, 1955
Mosca na Vidraça, 1959
O Manto Diáfano, 1961
Santos Pecadores, 1965
Madre Antiga, 1968
Almas Danadas, 1970
Milagre em S. Bartolomeu, 1972
O Poço, 1974
Cafarnaum, 1974
Mar Vivo, 1998
Caiu um Santo do Altar, 1999
A Congosta, 2000

Contos e Novelas

Ramilhete Espiritual de Estórias Profanas, 2001
Manual de Casos de Cons
ciência, 2002
Desconstrução, 2003
Assim no Céu como na Terra, 2006
O Baile, 2010

Contos Infantis

Uma lágrima do Céu, 2002
Estórias Pequeninas, 2008

Crónicas Linguísticas

Português sem Mestre, 2007
Português sem Mestre 2, 2009

Poesia

Flor do Sal – Sonetos de Amor e Escárnio, 2004
João, 2006 Erótica e Satírica, 2010

Varia

Palavras Ditas, 2002
Tomaz de Figueiredo, 2003

Excerto do livro “Madre Antiga”

“Nenhum remédio senão voltar-se, de braços cruzados, logo descidos por via do nó, um nó que nem à unha e que lhe acabava nos dentes. Abrira-se-lhe a ele a cara num sorriso de satisfação: por tudo, inclusive por aqueles seios escapos ao colete e ali dançar-lhe sobre os joelhos.

Enfiara-se ele primeiro nas mantas. Deitado, aguardara. Logo, numa pressa para não ser observada, ela atirara as saias para os pés da cama e enrolara-se-lhe ao lado, de joelhos na barriga e calcanhares nas sodras. De mãos sob a nuca, de papo para o ar, ele, ordenando:
- Apaga a luz!”